
Negra percepção, primeiro livro da jornalista e pensadora Rachel Quintiliano, comenta, com um olhar muito agudo, os dramas sociais enfrentados sobre e pelo negro que conviveu com a pandemia de Covid-19, detendo-se com atenção na importância da atuação das mulheres negras para a sobrevivência de suas famílias, sobretudo na periferia.
Para ele foram reunidos 23 textos, escolhidos dentre publicações na Revista Raça de 2020 a 2022.
Confesso que, lendo, me detive por vários momentos a indagar: por que isso ainda acontece? Como enfrentar e pôr fim a esse desacerto e injustiça social de que negros e negras continuam majoritariamente vítima?
É o desafio que Negra percepção põe diante do leitor e da leitora. E, ao fazê-lo, aponta para o fracasso da abolição e da república de 1889.
Não consigo escapar de, paralelo a Negra percepção, deixar de citar um poeta amigo dotado de fina percepção social. Cito Carlos Assumpção, de seu poema Protesto: “Mesmo que votem as cotas/ às minhas palavras de fogo, / não pararei de gritar, não pararei, não pararei de gritar. /Senhores, eu fui enviado ao mundo para protestar./ Mentiras, ouropéis, nada,/ nada me fará calar.”
Negra percepção entra, com força, coragem e sinceridade raramente vistas, nessa arena em que os instrumentos do nosso protesto, com a palavra na imprensa negra, livros, revistas, já inscreveram na história do negro nomes como Francisco de Paula Brito, Abdias do Nascimento, José Correia Leite, Carolina Maria de Jesus e tantos outros.
Este livro de Rachel soma-se a todos eles, trazendo novo alento à luta negra e conclamando mais uma vez a esperança.
Axé!
Oswaldo de Camargo, jornalista e escritor.
