O Investimento Social Privado está distante do compromisso com a igualdade de gênero

Em 1948 foi promulgada a Declaração Universal dos Direitos Humanos que, em seu artigo segundo, orienta que “[…] todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição”.

A Constituição Federal de 1988 também estabelece como diretriz a igualdade de gênero ao afirmar que “[…] Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. 

Em 1995, a comunidade internacional – inclusive com participação brasileira – , reunida em Pequim para a IV Conferência Mundial sobre Mulheres, cujo tema central foi “Ação para a igualdade, o desenvolvimento e paz”, afirmou os direitos das mulheres como direitos humanos e convocou todas as Nações a se comprometer em desenvolver ações, programas e políticas públicas para garantir esse direito para todas as mulheres. 

Ainda que esses marcos sejam nítidos, a igualdade, a equidade e a justiça de gênero ainda estão distantes das mulheres que, cotidianamente, sofrem com a violação desses direitos básicos, fundamentais e universais. 

As desigualdades podem ser observadas em praticamente todos os campos e áreas, inclusive no Investimento Social Privado (ISP). O último Censo produzido pelo GIFE em 2020 observou que, tanto a representatividade de pessoas do gênero feminino nos conselhos das instituições respondentes da pesquisa, quanto a abordagem do tema, deixam o ISP, tal como apresentado na publicação, ainda muito distante de cumprir com seu compromisso cívico de promover a igualdade de gênero

Ainda que as mulheres representem 64% da força de trabalho do ISP e que, do Censo de 2018 para o de 2020 tenha se observado um aumento de nove pontos percentuais com relação a essa presença, a proporção por gênero nos conselhos deliberativos de institutos, fundações e fundos filantrópicos é desigual. A maioria das pessoas nesse espaço é do gênero masculino (67%). Conselheiras do gênero feminino representam 32% e não binários 1%. 

Ao observar o dado de forma desagregada fica ainda mais visível essa desigualdade, porque existem conselhos deliberativos formados exclusivamente por homens (8% dos respondentes). 

Para além desse desequilíbrio, que demonstra que pessoas do gênero feminino estão sub representadas nos espaços de decisão e poder, o Investimento Social Privado, conforme os dados publicados no Censo GIFE 2020, trata as temáticas ligadas à diversidade de forma mais transversal do que direta. Apenas 9% dos respondentes afirmaram desenvolver ações e propostas diretamente relacionadas à temática das mulheres, ao passo que 38% contam com iniciativas que abordam o tema transversalmente.

Decerto é uma estratégia válida e deve ser ampliada no sentido de se promover e alcançar a igualdade de gênero, mas será que o tamanho do desafio não exigiria uma ação e estratégia de maior visibilidade? 

Diante dos casos cotidianos de violação de direitos de pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+ e mulheres, talvez seja razoável exigir mais de um setor ou grupo que opera investindo recursos privados para a geração de bem público. 

*Rachel Quintiliano é jornalista, pós-graduada em comunicação e saúde, com experiência em gestão de comunicação; planejamento estratégico e enfrentamento às desigualdades de gênero, raça, etnia e diversidade. Hoje é gerente de relações institucionais no GIFE e colunista da Revista Raça.

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Conteúdo publicado originalmente em 14/07/22: https://www.linkedin.com/feed/update/urn:li:ugcPost:6953337023172591617?updateEntityUrn=urn%3Ali%3Afs_updateV2%3A%28urn%3Ali%3AugcPost%3A6953337023172591617%2CFEED_DETAIL%2CEMPTY%2CDEFAULT%2Cfalse%29

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