Não sei quantas vezes estive na escola de samba Vai-Vai. Geralmente, como a maioria das pessoas que frequentam o local esporadicamente, fiquei na parte externa, na rua mesmo, entre os becos e vielas do Bixiga (bairro do centro da cidade de São Paulo).
Apesar de ter total ciência sobre a importância da escola para o samba, para o bairro, para a cidade e para a comunidade negra, nunca imaginei que pudesse guardar uma história tão rica e com tantos mistérios.
Orixás no terreiro sagrado do samba: Exu & Ogum no Candomblé da Vai-Vai, livro de Claudia Alexandre, lançado neste ano (2021), apresenta uma extensa e cuidadosa pesquisa sobre a conexão estreita entre o samba e a religiosidade.
São 208 páginas divididas em três capítulos, um posfácio e anexo indispensáveis para o que a obra se propõe a investigar: “os cultos aos orixás Exu e Ogum em um terreiro de samba. Na obra, a autora procura entender como essas práticas são possíveis fora de um terreiro de Candomblé. O livro entrega muito mais que isso e me deixou ainda com mais sede da história incrível desse espaço de resistência negra, enraizado no centro da cidade de São Paulo.
Logo na introdução, a autora indica que “[…] lá, por muitas vezes, o terreiro de samba transforma-se em um espaço sagrado, em um terreiro de orixás, revelando uma importante ligação com as tradições de Candomblé”. A pesquisa assinala que essa conexão é profunda. Fiquei com a sensação de que são inseparáveis na história da Vai-Vai. A autora, inclusive, alerta logo nas primeiras páginas que o olhar e a pesquisa vão muito além da conexão vista no “espetáculo estético”, nos desfiles de carnaval.
O livro revela que a escola de samba segue um calendário religioso, mantém altares, realiza festas, rituais e cerimônias para os orixás.
Assim, Claudia Alexandre responde uma série de perguntas exploratórias sobre o histórico dessas relações entre o sagrado e o samba; sobre ancestralidade e ritualidade. Para percorrer este caminho, ela colheu depoimentos dos membros da escola, de autoridades religiosas, fontes da comunidade e realizou uma revisão extensa da literatura sobre o assunto, para chegar à conclusão que, de fato, o terreiro do samba da Vai-Vai é o terreiro sagrado dos dois orixás padroeiros da escola, Exu e Ogum.
Para além da constatação que dá nome ao livro, Claudia Alexandre passeia por um universo rico de detalhes da história do samba, que inclui perseguição, religiosidade, música, festa, negritude, resistência e luta permanente por liberdade.
Segundo o site da editora, “[…] a partir desta obra – fruto da dissertação de mestrado em Ciência das Religiões da autora – o leitor perceberá o quanto as histórias dessas duas expressões culturais estão potentemente ligadas, uma vez que o carnaval negro não pode ser concebido sem a presença dos cultos ancestrais. Ainda que, ao longo do tempo, tenha ocorrido uma tentativa de apagamento de sua origem e, principalmente, da presença do negro e de suas religiões na indústria cultural e na história do samba e das escolas de samba, Claudia busca resgatar uma forma ancestral de perceber o mundo e religar esses universos ao ambiente acadêmico, revisitando acervos das experiências negro-africanas em diáspora e buscando caminhos para (re)escrever a História do Brasil.
Claudia Alexandre é jornalista, apresentadora, locutora, comentarista e pesquisadora. É também autora de outros dois livros, “Na fé de Vivaldo de Logunedé: um pouco do Candomblé na Baixada Santista” (Secult Santos) e “Vai-Vai: orgulho da Saracura”.
O livro “Orixás no terreiro sagrado do samba: Exu & Ogum no Candomblé da Vai-Vai”, publicado pelo selo Fundamentos de Axé, da editora Aruanda, está disponível nas principais livrarias em versão digital e impressa.
Conteúdo publicado originalmente em 22/04/21: https://revistaraca.com.br/raca-indica-13/