Águas da Cabaça, de Elizandra Souza 

Eu comecei a me interessar pela poesia vendo e ouvindo poetas declamá-las. Primeiro, li poetas e poetisas do hip-hop, depois, os da literatura marginal nos inúmeros eventos de poesia que costumavam fervilhar na cidade antes da pandemia de Covid-19. 

Tive a oportunidade de ouvir Elizandra Souza algumas vezes e, mais tarde, também tive a oportunidade de ler sua poesia. Sempre que leio, me reconecto comigo mesma, com minha comunidade, com minha família, com a minha cidade, com o meu ser mulher. Por isso, decidi sugerir na mesma semana em que indico o conto do Paulo Lins , porque ambos, de forma completamente distinta, me falam sobre resiliência. 

Águas da Cabaça foi lançado em 2012, em uma publicação independente – Edição do Autor, com 137 páginas, capa de Salamandra Gonçalves, projeto gráfico de Nina Vieira e ilustrações de Renata Felinto, apresenta mais de 100 poemas divididos em cinco partes. A cada capítulo ela apresenta o trecho de uma obra de outras escritoras: Conceição Evaristo, J. Nozipo Maraire, Maria Tereza, Zora Neale Hurston e Paulina Chiziane.

Sugiro a leitura preguiçosa dos poemas. Sugiro, também, ler mais de uma vez e até mesmo a partir de qualquer ponto que o seu olhar e sentimento lhe oriente. Nesta releitura para escrever essa sugestão, fui passando o olho pelo índice e fui direto para a página 33 para reler “Do Outro Lado da Margem”.

[…] estou sempre sentada na janelaEm algum ônibus que me leva há algum destino…Contemplo os pingos de chuva que se desequilibram na vidraça E deslizam como se fossem gotas de orvalhoMas desesperados por temerem cair no asfalto Não querem se afogar em um bueiro…A sejam continuar cristalinos…

Os movimentos da água, da vida, da cidade estão presentes em toda a obra. Águas da Cabaça, de Elizandra Souza, a quem ela dedica “A todas as mulheres negras que espalham sementes para que nunca nos faltem motivos para continuar vivas e resistentes”  é original, belíssimo e potente. 

O livro pode ser encontrado na livraria Africanidades

Publicado originalmente em 25/03/21: https://revistaraca.com.br/raca-indica-10/

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