Adoro os livros que logo nas primeiras páginas apresentam uma árvore genealógica. Além de facilitar a compreensão sobre quem é quem na história, fica nítido que elas se entrelaçam, coincidem e que as escolhas de uns interferem no presente e no futuro de outros. Essa foi a sensação que tive ao ler “O caminho de casa”, de Yaa Gyasi, lançado em 2017 e disponível em português pela Rocco, com tradução de Waldéa Barcellos.
O livro de 448 páginas é o primeiro de Yaa Gyasi e foi aclamado pela crítica especialmente norte-americana quando lançado. O romance colocou a jovem escritora na lista de autores de destaque com menos de 35 anos do National Book Foundation e garantiu a ela o prêmio PEN/Hemingway em 2017 na categoria melhor livro de estreia.
A autora Yaa Gyasi, que nasceu em Gana e cresceu nos Estados Unidos, anuncia logo nas primeiras páginas: “A família é como a floresta. Se você estiver do lado de fora, ela é fechada; se estiver dentro, verá que cada árvore tem sua própria posição” – provérbio Akan.
Yaa Gyasi, que dedicou o livro aos pais e irmãos, conta muitas histórias para explicar os diferentes e tortuosos caminhos das irmãs Effia e Esi. A história é ambientada em duas aldeias distintas de Gana, no século XVIII. Ao contar a história das duas irmãs, a autora também dá uma aula sobre as batalhas locais entre os povos da região, a respeito da miscigenação, do comércio de pessoas escravizadas e sobre o racismo.
Um dos trechos que mais chamou minha atenção está no capítulo “Yaw”, professor que com propriedade ensina: “Nós acreditamos na história de quem detém o poder, é ele que acaba escrevendo a história. Por isso, quando se estuda História, é preciso sempre fazer perguntas. Que história não está sendo contada? De quem é a voz que foi reprimida para que essa voz pudesse se fazer ouvir? Quando vocês tiverem descoberto essas respostas, precisarão encontrar aquela história também”.
Decidi acreditar na história contada por Yaa Gyasi. Me fez atravessar o oceano Atlântico, conhecer Gana do século XVIII, fazer o caminho reverso, entrar em minas de carvão, me deixou com vontade de comer fufú de inhame. Me entregou as memórias familiares que possivelmente foram vivenciadas pelos meus antepassados.
Conteúdo publicado originalmente em 25/02/21: https://revistaraca.com.br/raca-indica-6/