Já que estamos falando de escravizados e de seus sonhos e feitos por liberdade, a terceira indicação desta semana é o livro da professora Ana Flávia Magalhães Pinto, lançado em 2010, pelo Selo Negro Edições, na série Consciência em Debate, que tive o privilégio de ler antes de ser publicado.
Assim como Yaa Gyasi, Ana Flávia Magalhães Pinto dedica o livro, que é resultado de uma extensa pesquisa de mestrado, aos seus pais, Sara e Luiz, a quem ela se refere como símbolos da resistência.
O livro, “Imprensa Negra no Brasil do século XIX” virou um grande objeto de consulta para mim. Vira e mexe estou buscando uma referência nele para fazer um texto, uma apresentação. A primeira vez que li, chorei. Simplesmente chorei ao descobrir o quanto jornalistas como eu fizeram pelo sonho de liberdade.
A escrita é leve, bem argumentada, repleta de provas e costurada de tão maneira que se torna inequívoco registro da participação ativa da imprensa negra na luta por liberdade. São 181 páginas divididas em quatro capítulos que analisam oito títulos, compreendendo o período de 1833 a 1899. Inclusive, 1833 é uma data a ser registrada. Foi naquele ano, no dia 14 de setembro, que o primeiro jornal da imprensa negra brasileira foi publicado, chamado de “Homem de Cor”.
É um livro de história. De muitas histórias. Os periódicos escolhidos pela autora para a análise aguçada levam os/as leitores/as para muitos lugares, na medida em que cada contexto é tão bem descrito e examinado.
Hoje, revendo algumas páginas e lembrando do choro da primeira leitura, fica nítido para mim que as lágrimas daquele momento desvendaram meus olhos. Acho que a pergunta que naquele momento não fui capaz de fazer é: por que não aprendi sobre isso na escola? Por que nunca soube disso enquanto estava na faculdade de jornalismo?
A resposta está certamente no apagamento, no ato cotidiano de invisibilizar as pessoas negras e os seus feitos.
Segundo a página do livro no site da editora: “Ao ressaltar momentos marcantes da imprensa negra oitocentista, este livro debate as formas de resistência negra e contribui para o enfrentamento da discriminação racial no Brasil. Num momento em que nosso país se depara com temas polêmicos, como o Estatuto da Igualdade Racial e as cotas em universidades, a Coleção Consciência em Debate pretende discutir assuntos prementes que interessam não somente aos movimentos negros como a todos os brasileiros. Fundamental para educadores, pesquisadores, militantes e estudantes de todos os níveis de ensino”.
Conteúdo publicado originalmente em 25/02/21: https://revistaraca.com.br/raca-indica-6/