“Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas, o custo dos generos alimenticios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente, somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar”.
Poderia ser o trecho de um diário de qualquer pessoa pobre nos dias de hoje. Mas não é. São as primeiras linhas do livro Quarto de Despejo (1960) de Carolina Maria de Jesus e remontam ao dia 15 de julho de 1955, quando ela planejava ou sonhava comprar sapatos novos para a sua filha Vera Eunice.
Eu li a 9a edição, publicada em 2012 pela Editora Ática, que garante que o texto ficcional desta obra é o mesmo das edições anteriores.
“Quarto de Despejo: diário de uma favelada” traz as memórias de Carolina Maria de Jesus, que antes de ser escritora publicada resolveu escrever o seu dia a dia. Com algumas lacunas entre os anos, ela descreve o seu cotidiano entre 1955 e 1960. São anos de relatos de sobrevivência, de denúncia, de trabalho pesado e também de esperança.
Os relatos disponibilizados no livro, na maioria das vezes, não passam de um parágrafo. Mas não faltam queixas sobre o preço dos alimentos, da oferta de álcool na favela, sobre a falta de água, saneamento e dos movimentos de desapropriação, apropriação e despejo a que as pessoas pobres e faveladas estão sujeitas frequentemente.
Quarto de Despejo é um clássico da literatura brasileira. É envolvente e infelizmente uma crônica dos dias de hoje.
Carolina Maria de Jesus (1914-1977) está entre as principais escritoras brasileiras. Além de “Quarto de Despejo”, que foi traduzido em mais de dez idiomas, ela também publicou em vida: Casa de Alvenaria: diário de uma ex-favelada (1961) e Pedaços da Fome (1963). Após sua morte, quatro outros livros foram publicados: Diário de Bitita (1986); Meu estranho diário (1996); Antologia pessoal (1996) e Onde estaes felicidade? (2014).
A Biblioteca Nacional mantém a Coleção Carolina Maria de Jesus com escritos da autora. São 14 cadernos, 22 fotos e 10 microfilmes. É possível ler os relatos manuscritos por ela clicando aqui.
Conteúdo publicado originalmente em 19/02/2021 em https://revistaraca.com.br/raca-indica-5/